A temática deste blog continuará a ser tratada num novo endereço.
Agradeço a todos os que por aqui passaram, ao longo destes meses, toda a atenção dispensada.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
Justiça
Sempre considerei admirável a capacidade de ser juiz e de fazer aplicar a justiça. Pressupõe, entre outros atributos, a capacidade de aplicar a lei, para lá de qualquer emoção que possa estar envolvida. E julgo que ninguém gostaria de concordar quanto à existência de sentimentos e de estados subjectivos quando se trata de julgar e, em sequência desse julgamento, proferir uma sentença de culpabilidade. O mesmo no que se refere à decisão de considerar alguém inocente.
Nestas matérias, gostamos sempre de acreditar que existe uma lei objectiva (o que já de si é uma eterna questão) e que há quem a aplique com essa mesma objectividade. Evidentemente, contamos com a isenção e imparcialidade de todos os envolvidos num processo de aplicação da lei, fazendo justiça.
Mas a questão não é assim tão simples.
Retomando a noção já científica e a subsequente crença de que as emoções têm um papel fundamental no nosso processo de tomada de decisões, como sopesar a actuação da justiça, a partir desse princípio que tem tudo para ganhar a nossa adesão? Afinal, quem julga e quem tem o poder de aplicar a justiça será influenciado pelas suas emoções?
É importante clarificar alguns aspectos, a este respeito. A noção de marcador somático refere-se, em especial, às decisões que é preciso tomar rapidamente. Daí o seu carácter precioso enquanto auxiliar indispensável nas opções do dia-a-dia. Uma valiosa economia de tempo e uma segura orientação para a nossa vida, nos seus instantes mais simples e elementares, tão fulcrais para a nossa sobrevivência.
Por outro lado, é evidente que pressupomos ser uma decisão jurídica, aquele tipo de escolha que se assume após longa e maturada ponderação e reflexão. E, nesse sentido, todo o trabalho do que podemos chamar a nossa "via superior" terá que estar envolvido. Mas nem aqui a hipótese do marcador somático terá que ser abandonada. De acordo com Damásio, "(...) se o cérebro é normal e a cultura em que se desenvolve é saudável, o dispositivo automatizado de marcação-somática funciona de modo racional relativamente às convenções sociais e à ética." Isto porque estamos sintonizados com as prescrições culturais que nos garantem a sobrevivência numa dada sociedade.
No entanto, será ainda de colocar um conjunto de questões que se revelam pertinentes: a dimensão emotiva estará sempre, de facto, totalmente ausente do processo de decisão relativo a problemas de natureza ética e social? Se está presente, onde e como se manifesta e o que é que acontece, em rigor? E se assim é, se está presente neste contexto, será que revela alguma utilidade? Afinal, é legítimo orientar intuitivamente um juízo? Por outro lado, poderão ser aqueles que julgam, mesmo que apenas por minutos ou horas, seres absolutamente racionais? Um exercício rigoroso poderá permitir-lhes estarem acima de qualquer falha humana? A Justiça será realmente cega? Ou a Justiça é apenas a justiça da nossa sociedade?
Mas repugna-nos a ideia da Justiça ser impossível, ou mesmo a ideia dela ser relativa. Não é a mesma coisa falar de Justiça ou de justiças. Mesmo que algo utópica, sentimos que Ela deveria estar presente nos nossos mundos. Por maior que seja o cepticismo, existe sempre uma esperança na Justiça. Mesmo que a vida não seja justa, queremos crer que nós, humanos, podemos torná-la melhor... e mais justa...
Se as emoções são todo um universo de riqueza inesgotável e o lugar onde poderemos encontrar largamente a nossa verdadeira condição humana, também não será menos certo que a nossa efectiva humanidade pode depender da capacidade de agir para lá do carácter subjectivo dos nossos estados emotivos. E aqui, a questão mais interessante será: até que ponto as nossas próprias emoções serão mais sociais do que biológicas? Em certas áreas, como é o caso da área da responsabilidade social, o caminho pode ser outro. A saber: aquele que salvaguarda interesses relativos à nossa sobrevivência, enquanto seres eminentemente sociais e cuja realização passa pela socialização. E aí, não é a voz da razão a mais correcta, a mais segura e a melhor para todos? Uma razão informada por conteúdos de natureza social e pela necessidade de os respeitarmos, uma vez que isso pode ser determinante para o futuro da espécie humana.
Na verdade, as implicações que resultam da noção de marcador somático são muitas. Penso que uma das vertentes mais interessantes é a das consequências que se retiram para a questão da aplicação da justiça. Isto, por um lado. Por outro, são igualmente importantes as que poderão vir a retirar-se para o problema da criminalidade.
As questões continuam a exigir reflexão, hoje como no passado.
Um dos casos mais paradigmáticos continua a ser o de Sócrates e da sua condenação à morte.
Vale a pena relembrá-lo e reinterpretá-lo. Encontra-se sempre mais qualquer coisa... interessante para pensar. Encontramos aqui, certamente, o facto de que a reflexão ética é algo estrutural. Quem cria as normas e as leis somos nós.
Mas a questão não é assim tão simples.
Retomando a noção já científica e a subsequente crença de que as emoções têm um papel fundamental no nosso processo de tomada de decisões, como sopesar a actuação da justiça, a partir desse princípio que tem tudo para ganhar a nossa adesão? Afinal, quem julga e quem tem o poder de aplicar a justiça será influenciado pelas suas emoções?
É importante clarificar alguns aspectos, a este respeito. A noção de marcador somático refere-se, em especial, às decisões que é preciso tomar rapidamente. Daí o seu carácter precioso enquanto auxiliar indispensável nas opções do dia-a-dia. Uma valiosa economia de tempo e uma segura orientação para a nossa vida, nos seus instantes mais simples e elementares, tão fulcrais para a nossa sobrevivência.
Por outro lado, é evidente que pressupomos ser uma decisão jurídica, aquele tipo de escolha que se assume após longa e maturada ponderação e reflexão. E, nesse sentido, todo o trabalho do que podemos chamar a nossa "via superior" terá que estar envolvido. Mas nem aqui a hipótese do marcador somático terá que ser abandonada. De acordo com Damásio, "(...) se o cérebro é normal e a cultura em que se desenvolve é saudável, o dispositivo automatizado de marcação-somática funciona de modo racional relativamente às convenções sociais e à ética." Isto porque estamos sintonizados com as prescrições culturais que nos garantem a sobrevivência numa dada sociedade.
No entanto, será ainda de colocar um conjunto de questões que se revelam pertinentes: a dimensão emotiva estará sempre, de facto, totalmente ausente do processo de decisão relativo a problemas de natureza ética e social? Se está presente, onde e como se manifesta e o que é que acontece, em rigor? E se assim é, se está presente neste contexto, será que revela alguma utilidade? Afinal, é legítimo orientar intuitivamente um juízo? Por outro lado, poderão ser aqueles que julgam, mesmo que apenas por minutos ou horas, seres absolutamente racionais? Um exercício rigoroso poderá permitir-lhes estarem acima de qualquer falha humana? A Justiça será realmente cega? Ou a Justiça é apenas a justiça da nossa sociedade?
Mas repugna-nos a ideia da Justiça ser impossível, ou mesmo a ideia dela ser relativa. Não é a mesma coisa falar de Justiça ou de justiças. Mesmo que algo utópica, sentimos que Ela deveria estar presente nos nossos mundos. Por maior que seja o cepticismo, existe sempre uma esperança na Justiça. Mesmo que a vida não seja justa, queremos crer que nós, humanos, podemos torná-la melhor... e mais justa...
Se as emoções são todo um universo de riqueza inesgotável e o lugar onde poderemos encontrar largamente a nossa verdadeira condição humana, também não será menos certo que a nossa efectiva humanidade pode depender da capacidade de agir para lá do carácter subjectivo dos nossos estados emotivos. E aqui, a questão mais interessante será: até que ponto as nossas próprias emoções serão mais sociais do que biológicas? Em certas áreas, como é o caso da área da responsabilidade social, o caminho pode ser outro. A saber: aquele que salvaguarda interesses relativos à nossa sobrevivência, enquanto seres eminentemente sociais e cuja realização passa pela socialização. E aí, não é a voz da razão a mais correcta, a mais segura e a melhor para todos? Uma razão informada por conteúdos de natureza social e pela necessidade de os respeitarmos, uma vez que isso pode ser determinante para o futuro da espécie humana.
Na verdade, as implicações que resultam da noção de marcador somático são muitas. Penso que uma das vertentes mais interessantes é a das consequências que se retiram para a questão da aplicação da justiça. Isto, por um lado. Por outro, são igualmente importantes as que poderão vir a retirar-se para o problema da criminalidade.
As questões continuam a exigir reflexão, hoje como no passado.
Um dos casos mais paradigmáticos continua a ser o de Sócrates e da sua condenação à morte.
Vale a pena relembrá-lo e reinterpretá-lo. Encontra-se sempre mais qualquer coisa... interessante para pensar. Encontramos aqui, certamente, o facto de que a reflexão ética é algo estrutural. Quem cria as normas e as leis somos nós.
Sócrates foi condenado à morte. Os seus amigos, entre eles, Críton, querem que ele fuja de Atenas. Afirmam que podem organizar tudo para a fuga e tentam convencê-lo de que é o melhor para ele, Sócrates, uma vez que foi condenado injustamente.
Sócrates recusa e explica a Críton porque o faz. Trata-se de uma questão de coerência, mas também de dever e de justiça, sem dúvida. Do seu ponto de vista, é preferível sofrer uma injustiça do que praticá-la.
Sócrates recusa e explica a Críton porque o faz. Trata-se de uma questão de coerência, mas também de dever e de justiça, sem dúvida. Do seu ponto de vista, é preferível sofrer uma injustiça do que praticá-la.
"Sócrates - (...) Porque não é de hoje, mas de sempre, que tenho por princípio escutar em mim apenas uma voz, a da razão, a qual, submetida a exame, me parece a melhor.
Os argumentos que defendi até agora não os posso rejeitar por me ter acontecido um mal; ao contrário, surgem-me sensivelmente idênticos e tenho por eles o mesmo respeito e a mesma deferência que anteriormente. (...)
Regulemo-nos, pois, por estes dois princípios aceites para examinar se é justo que eu tente sair daqui sem a concordância dos Atenienses, ou se o não é.
Se isso nos parecer justo, tentemos, senão renunciemos.
(...) Mas nós, uma vez que a razão o demonstra, a única coisa que temos a considerar é o que acabei de dizer: será um acto de justiça dar dinheiro aos que me tirarem daqui e juntar o nosso agradecimento, seja ajudando à evasão, seja evadindo-me eu próprio, ou não estaremos a cometer realmente uma injustiça com tudo isso? E, se vemos que seria uma injustiça fazer tal coisa, não temos de estar a calcular se devemos morrer ficando aqui ou sofrer qualquer outra pena, quando se trata de evitar a justiça.
Críton - Parece-me que tens razão, Sócrates. Diz então o que devemos fazer.
(...)
Sócrates - Não se deve, portanto, responder à injustiça com a injustiça, nem fazer mal a nenhum homem, seja o que for que ele nos tenha feito. (...)
Examina, pois, cuidadosamente, se, do teu lado, estás de acordo comigo e partilhas da minha convicção; se podemos discutir, partindo do princípio de que nunca está bem ser injusto, nem responder à injustiça com a injustiça, nem, mesmo quando nos fazem mal, vingarmo-nos retribuindo-o! Ou separas-te de mim e rejeitas este princípio? Da minha parte, tenho-o como verdadeiro há muito tempo e ainda hoje assim o tenho. Mas, se tu fores de outra opinião, declara-o e explica-te. Se, pelo contrário, te manténs fiel ao teu primeiro sentimento, escuta o seguinte.
Críton - Sim, mantenho-me fiel e partilho da tua opinião. Fala, portanto. (...) "
Os argumentos que defendi até agora não os posso rejeitar por me ter acontecido um mal; ao contrário, surgem-me sensivelmente idênticos e tenho por eles o mesmo respeito e a mesma deferência que anteriormente. (...)
Regulemo-nos, pois, por estes dois princípios aceites para examinar se é justo que eu tente sair daqui sem a concordância dos Atenienses, ou se o não é.
Se isso nos parecer justo, tentemos, senão renunciemos.
(...) Mas nós, uma vez que a razão o demonstra, a única coisa que temos a considerar é o que acabei de dizer: será um acto de justiça dar dinheiro aos que me tirarem daqui e juntar o nosso agradecimento, seja ajudando à evasão, seja evadindo-me eu próprio, ou não estaremos a cometer realmente uma injustiça com tudo isso? E, se vemos que seria uma injustiça fazer tal coisa, não temos de estar a calcular se devemos morrer ficando aqui ou sofrer qualquer outra pena, quando se trata de evitar a justiça.
Críton - Parece-me que tens razão, Sócrates. Diz então o que devemos fazer.
(...)
Sócrates - Não se deve, portanto, responder à injustiça com a injustiça, nem fazer mal a nenhum homem, seja o que for que ele nos tenha feito. (...)
Examina, pois, cuidadosamente, se, do teu lado, estás de acordo comigo e partilhas da minha convicção; se podemos discutir, partindo do princípio de que nunca está bem ser injusto, nem responder à injustiça com a injustiça, nem, mesmo quando nos fazem mal, vingarmo-nos retribuindo-o! Ou separas-te de mim e rejeitas este princípio? Da minha parte, tenho-o como verdadeiro há muito tempo e ainda hoje assim o tenho. Mas, se tu fores de outra opinião, declara-o e explica-te. Se, pelo contrário, te manténs fiel ao teu primeiro sentimento, escuta o seguinte.
Críton - Sim, mantenho-me fiel e partilho da tua opinião. Fala, portanto. (...) "
in Críton, Platão
Este texto, de grande elegância e sobriedade, alcança uma profundidade filosófica única. A problemática da justiça e injustiça está ligada ao respeito pelas leis da sociedade na qual se está inserido(a). E à ideia de que o que somos é produto dessa sociedade que se institui como responsável por nós. A coerência obriga ao seguinte: se, para umas coisas, recebemos benefícios da sociedade e a usamos para nosso proveito; isso implica que, para outras, mesmo que desvantajosas para o nosso lado, também aceitemos as suas leis.
Evidentemente, é discutível e para reflectir...!
Evidentemente, é discutível e para reflectir...!
quinta-feira, 4 de outubro de 2007
Hannah Arendt

Hannah Arendt é uma figura feminina cujo mérito, entre outros, é o de ter sido alguém que se dedicou ao aprofundamento de questões dominadas, na sua esmagadora maioria, por figuras masculinas. Era assim naquela época e hoje, esse estado de coisas ainda não é tão diferente quanto isso. Mas foi também e sobretudo, para além desse facto assinalável, uma grande intelectual do século XX, justamente reconhecida como tal, por muitos outros grandes pensadores e políticos. E digo políticos, porque Hannah Arendt fez questão de frisar que a sua área era, em rigor, a área da "teoria política" e não a da filosofia.
Mas estudou filosofia... E muito. E bem.
Uma das ideias centrais do seu pensamento é o anti-totalitarismo. Fez assim uma crítica radical a todos os regimes políticos, à esquerda e à direita, desde o momento em que as suas opções de poder se revelassem totalitárias.
Centrou as suas reflexões também em torno de outras temáticas, sendo de destacar a apreciação que fez da questão do mal.
A sua radical e rigorosa honestidade intelectual valeu-lhe algumas críticas e também alguns inimigos do seu pensamento. Por exemplo, sendo judia, não deixou de tentar entender a origem do mal, estando presente no julgamento de Eichmann, em Jerusalém. Este alto funcionário do nazismo foi um dos principais responsáveis pela chamada "Solução Final". Hannah Arendt, com base naquilo a que assistiu e que avaliou, reconhece que o mal pode ter uma aparência bem diferente daquela que, regra geral, lhe é atribuída. A face do mal pode ser a face da normalidade.
Facto sui generis, viu-se acusada por muitos de anti-semitismo. Em rigor, a acusação referia-se ao povo judeu (as expressões semitismo e anti-semitismo podem ser imprecisas...). Mas na verdade, o que afirmou é digno de nota e sobretudo de atenta reflexão: o mal não tem que ser resultado de actos de seres monstruosos no sentido tradicional da ideia. Talvez seja bem pior do que isso: o mal, os actos mais monstruosos, mais repelentes e trucidantes podem ser levados a cabo por homens/mulheres normalíssimos/as, os quais praticam o crime sem verdadeira consciência do horror a que dão origem. Por exemplo, podem sentir que têm que cumprir ordens, acima de tudo, interpretando essa obediência como seu dever máximo. E com base nesta acção que reveste um carácter de normalidade: a do funcionário que cumpre ordens... ; com base nela matam-se impiedosamente milhões de seres humanos. O mal atinge, neste ponto, a sua mais radical banalidade. A sua origem pode residir num acto que aparentemente é tão simples como "beber um copo de água".
Conclusão: o mal é muito mais complexo do que poderíamos ter pensado...
Eichmann é visto por Hannah Arendt como um homem normal, e extremamente perigoso na sua normalidade. Sobre esta temática, é de ler o seu texto "Com Eichmann em Jerusalém".
Mas estudou filosofia... E muito. E bem.
Uma das ideias centrais do seu pensamento é o anti-totalitarismo. Fez assim uma crítica radical a todos os regimes políticos, à esquerda e à direita, desde o momento em que as suas opções de poder se revelassem totalitárias.
Centrou as suas reflexões também em torno de outras temáticas, sendo de destacar a apreciação que fez da questão do mal.
A sua radical e rigorosa honestidade intelectual valeu-lhe algumas críticas e também alguns inimigos do seu pensamento. Por exemplo, sendo judia, não deixou de tentar entender a origem do mal, estando presente no julgamento de Eichmann, em Jerusalém. Este alto funcionário do nazismo foi um dos principais responsáveis pela chamada "Solução Final". Hannah Arendt, com base naquilo a que assistiu e que avaliou, reconhece que o mal pode ter uma aparência bem diferente daquela que, regra geral, lhe é atribuída. A face do mal pode ser a face da normalidade.
Facto sui generis, viu-se acusada por muitos de anti-semitismo. Em rigor, a acusação referia-se ao povo judeu (as expressões semitismo e anti-semitismo podem ser imprecisas...). Mas na verdade, o que afirmou é digno de nota e sobretudo de atenta reflexão: o mal não tem que ser resultado de actos de seres monstruosos no sentido tradicional da ideia. Talvez seja bem pior do que isso: o mal, os actos mais monstruosos, mais repelentes e trucidantes podem ser levados a cabo por homens/mulheres normalíssimos/as, os quais praticam o crime sem verdadeira consciência do horror a que dão origem. Por exemplo, podem sentir que têm que cumprir ordens, acima de tudo, interpretando essa obediência como seu dever máximo. E com base nesta acção que reveste um carácter de normalidade: a do funcionário que cumpre ordens... ; com base nela matam-se impiedosamente milhões de seres humanos. O mal atinge, neste ponto, a sua mais radical banalidade. A sua origem pode residir num acto que aparentemente é tão simples como "beber um copo de água".
Conclusão: o mal é muito mais complexo do que poderíamos ter pensado...
Eichmann é visto por Hannah Arendt como um homem normal, e extremamente perigoso na sua normalidade. Sobre esta temática, é de ler o seu texto "Com Eichmann em Jerusalém".
Sentença de morte de Eichmann
Alguns excertos de uma conversa do jornalista Günter Gaus com Hannah Arendt
Esta conversa teve lugar em 28 de Outubro de 1964. Günter Gaus era, na altura, um conceituado jornalista e, mais tarde, um alto responsável do governo de Willy Brandt. A conversa foi transmitida pela televisão alemã ocidental.
"Gaus - Estudou em Marburgo, Heidelberga e Friburgo com os professores Heidegger, Bultmann e Jaspers; com um dos maiores em filosofia e outros não tão bons em teologia e grego. Como escolheu estas matérias?
Arendt - Como sabe, pensei muito sobre isso, mas só posso dizer que sempre soube que estudava filosofia, mesmo quando tinha catorze anos.
Gaus - Porquê?
Arendt - Li Kant. Pode perguntar: Porquê Kant? Para mim a questão é assim: Posso estudar filosofia, como posso orientar-me a mim própria, por assim dizer. Mas não foi porque não amasse a vida! Não! Como já reconheci antes, sentia esta necessidade de compreender... A necessidade de compreender possuiu-me desde muito nova. Pode ver, todos os livros que estavam na biblioteca da casa; bastava um gesto para os tirar das prateleiras.
(...)
Gaus - Senhora Arendt, o seu livro acerca do julgamento de Eichmann em Jerusalém foi publicado na República Federal, em ambiente de muita polémica. Desde a sua publicação, na América, tem sido objecto de calorosas discussões. Do lado judeu, em especial, têm sido levantadas as objecções de que você teria tomado partido, sem ter informações e fundamentos suficientes e de se ter baseado, em grande parte, numa campanha política intencional. Acima de tudo, houve quem se sentisse ofendido com a generalização da censura de aceitação passiva, por parte dos judeus, dos assassinos de massa alemães, ou pela colaboração de alguns conselhos judeus que é apresentada como uma espécie de condenação de si próprios. De qualquer modo, para um retrato de Hannah Arendt, várias questões foram desencadeadas por este livro. Se posso começar com elas: A crítica de que o seu livro manifesta falta de amor pelo povo judeu é dolorosa para si?
Arendt - (...) De modo algum, no meu livro, reprovo o povo judeu pela sua não-resistência. Se houve alguém que o tivesse feito, no julgamento de Eichmann, foi, nomeadamente, Mr. Haussner, procurador oficial de Israel. Designei as questões, que foram sendo dirigidas às testemunhas em Jerusalém, absurdas e cruéis.
Gaus - Li o livro e sei isso, mas algumas das críticas que lhe dirigem baseiam-se no tom de voz com que muitas das suas passagens são escritas.
Arendt - Bem, isso é outra matéria. Mas que posso eu dizer? Para além disso, não quero dizer mais nada. Se as pessoas julgam que apenas se pode escrever sobre estas matérias em tom de voz solene... há pessoas que consideram ofensivo - posso entender, mas num sentido em que, por exemplo, me dá ainda vontade de rir. As pessoas tomam esta reacção, no seu mau sentido, mas contra isso nada posso fazer. Sei apenas que, três minutos antes de morrer, me riria certamente da mesma maneira. Ora é a isso que eles chamam tom de voz. Que o tom de voz é totalmente irónico, é inteiramente verdade, mas o tom de voz é realmente a pessoa, neste caso. Quando me censuram de acusar o povo judeu, acho isso mentira maldosa e simples propaganda, nada mais. O tom de voz é, apesar de tudo, uma objecção contra mim pessoalmente, mas contra isso, nada posso fazer.
(...) "
O pensamento de Hannah Arendt é fonte de inúmeras discussões, polémicas e, por vezes, de equívocos. Mas é, sem dúvida, profundo, radical, complexo e imperdível. Também extremamente actual.
Boas leituras e reflexões!
"Gaus - Estudou em Marburgo, Heidelberga e Friburgo com os professores Heidegger, Bultmann e Jaspers; com um dos maiores em filosofia e outros não tão bons em teologia e grego. Como escolheu estas matérias?
Arendt - Como sabe, pensei muito sobre isso, mas só posso dizer que sempre soube que estudava filosofia, mesmo quando tinha catorze anos.
Gaus - Porquê?
Arendt - Li Kant. Pode perguntar: Porquê Kant? Para mim a questão é assim: Posso estudar filosofia, como posso orientar-me a mim própria, por assim dizer. Mas não foi porque não amasse a vida! Não! Como já reconheci antes, sentia esta necessidade de compreender... A necessidade de compreender possuiu-me desde muito nova. Pode ver, todos os livros que estavam na biblioteca da casa; bastava um gesto para os tirar das prateleiras.
(...)
Gaus - Senhora Arendt, o seu livro acerca do julgamento de Eichmann em Jerusalém foi publicado na República Federal, em ambiente de muita polémica. Desde a sua publicação, na América, tem sido objecto de calorosas discussões. Do lado judeu, em especial, têm sido levantadas as objecções de que você teria tomado partido, sem ter informações e fundamentos suficientes e de se ter baseado, em grande parte, numa campanha política intencional. Acima de tudo, houve quem se sentisse ofendido com a generalização da censura de aceitação passiva, por parte dos judeus, dos assassinos de massa alemães, ou pela colaboração de alguns conselhos judeus que é apresentada como uma espécie de condenação de si próprios. De qualquer modo, para um retrato de Hannah Arendt, várias questões foram desencadeadas por este livro. Se posso começar com elas: A crítica de que o seu livro manifesta falta de amor pelo povo judeu é dolorosa para si?
Arendt - (...) De modo algum, no meu livro, reprovo o povo judeu pela sua não-resistência. Se houve alguém que o tivesse feito, no julgamento de Eichmann, foi, nomeadamente, Mr. Haussner, procurador oficial de Israel. Designei as questões, que foram sendo dirigidas às testemunhas em Jerusalém, absurdas e cruéis.
Gaus - Li o livro e sei isso, mas algumas das críticas que lhe dirigem baseiam-se no tom de voz com que muitas das suas passagens são escritas.
Arendt - Bem, isso é outra matéria. Mas que posso eu dizer? Para além disso, não quero dizer mais nada. Se as pessoas julgam que apenas se pode escrever sobre estas matérias em tom de voz solene... há pessoas que consideram ofensivo - posso entender, mas num sentido em que, por exemplo, me dá ainda vontade de rir. As pessoas tomam esta reacção, no seu mau sentido, mas contra isso nada posso fazer. Sei apenas que, três minutos antes de morrer, me riria certamente da mesma maneira. Ora é a isso que eles chamam tom de voz. Que o tom de voz é totalmente irónico, é inteiramente verdade, mas o tom de voz é realmente a pessoa, neste caso. Quando me censuram de acusar o povo judeu, acho isso mentira maldosa e simples propaganda, nada mais. O tom de voz é, apesar de tudo, uma objecção contra mim pessoalmente, mas contra isso, nada posso fazer.
(...) "
O pensamento de Hannah Arendt é fonte de inúmeras discussões, polémicas e, por vezes, de equívocos. Mas é, sem dúvida, profundo, radical, complexo e imperdível. Também extremamente actual.
Boas leituras e reflexões!
segunda-feira, 1 de outubro de 2007
De volta...
O Marcador Somático está de volta (apesar da sua curta existência anterior, não deixa de ser um regresso). Regressa com "o cair da folha". O Outono nostálgico é também época de reencontros e de momentos onde gostamos ainda mais de comunicar. De recomeços, acompanhando o ciclo da vida de acordo com a natureza...

segunda-feira, 23 de julho de 2007
A Filosofia (não) serve para tudo!
Por vezes, deparo-me com leituras que me incomodam. Por vezes, sinto que a ambição desmedida eclipsa a mais pequena consideração pela filosofia, pelos seus autores. Isto é, no mínimo, aborrecido, desinteressante, de mau gosto. Quando as pessoas decidem usar nomes ilustres e ainda mais, os seus pensamentos, de modo superficial, sem entrega às verdadeiras questões e respeito por aqueles que as pensaram, o mundo vai mal.
É um fenómeno, por outro lado, interessante de analisar. Ou seja, averiguar e elucidar os mecanismos subjacentes a este tipo de exteriorizações onde se atropelam conceitos, personagens, ideais e sabe-se lá que mais, tendo em vista, no entanto, objectivos bem definidos. Mal conseguidos mas, apesar de tudo, para muita gente, ambíguos e equívocos o quanto baste para emudecer os mais desavisados. E deste modo, obter uma aproximação a um topo qualquer que não se percebe muito bem qual seja. Mas deve ser algo promissor. Ou não se invocariam personalidades que chegam a ser exóticas para o comum dos leitores de certos textos. Ou não se construiriam "obras literárias" dignas da arquitectura do "bidonville" intelectual em que muitas mentes megalómanas se encontram afundadas.
Tudo isto para exorcizar o meu mal-estar perante certas leituras. Tudo isto para dizer que é inacreditável abrir um belo dia um blog e ler raciocínios incoerentes e mal elaborados, utilizando com a maior das ligeirezas, autores e teorias filosóficas, aplicando esta temática a seu bel-prazer em adaptações livres no sentido de impedir a liberdade de quem as leia.
Textos tendenciosos não faltam, por aí... Não ser tendencioso é difícil a qualquer um/a que se queira minimamente consciente. Mas ser tendencioso não dizendo nada, a não ser dizendo e mal o que outros disseram...é grave. Sobretudo porque os invocados não se podem defender, pela simples razão de que estão mortos.
Evidentemente que existe e deve existir sempre liberdade de interpretação de textos, de autores, de ideias, de teorias expressas e que podem ser, mesmo que não o sejam de facto, do domínio público. Interpretar consiste num acto de liberdade. Sem dúvida. Mas como em toda a liberdade de cada um, o seu exercício termina onde começa a liberdade dos outros. E é esta a questão real. Quando se interpreta com liberdade, os princípios éticos de quem interpreta tornam-se óbvios (ou a sua total inexistência).
É grave fazer adaptações livres de natureza duvidosa, sem dar a quem lê tais adaptações-interpretações os instrumentos necessários para que delas possa ser feita uma correcta avaliação. Pressupondo, desde logo, o desconhecimento, em muitos casos, previsivelmente provável, por parte de leitores de blogs ou de jornais e revistas, por exemplo, será de apresentar com a maior limpidez possível aquilo que torna a leitura passível de ser feita em pé de mínima igualdade. Isto pode ser uma utopia mas talvez o entendimento entre os cidadãos do mundo fosse um pouco mais efectivo, se esta utopia pudesse, pelo menos, nortear as nossas intervenções na sociedade, enquanto paradigma.
Desde sempre, as estratégias argumentativas podem apresentar-se carregadas de sofismas. Não é de agora. No entanto, o problema é que nem todos estão sempre aptos a detectá-los. E quanto a isso, neste caso, como no caso da falta de informação geral, a responsabilidade não é só de quem argumenta com falsidades e nulidades, mas também, em grande dose, cabe àqueles que absorvem essa linha argumentativa. Procurarão informar-se? Procurarão saber quem é o filósofo citado, a teoria referida, a peça de teatro invocada? Se calhar, temos aquilo que merecemos: "A panela certa para a tampa que somos". A imperfeita união perfeita.
Perante um qualquer artigo de opinião (num jornal, por ex.), inclusive de grande qualidade, encontram-se referências que podem ser desconhecidas dos melhores. Em princípio, nada nos impede de averiguar a referência em causa e eventualmente, aprofundar a fonte, até ficar claro o contexto em que ela foi utilizada pelo autor do hipotético artigo.
De todo o modo, seria preciso esclarecer a que "público" se dirige o "orador", depois deste ter averiguado que "público" é aquele que o procura. É neste ponto que os princípios éticos existentes ou inexistentes se tornam óbvios, para quem os queira ver.
Platão e Aristóteles, só para dar dois exemplos, são referências magníficas, mas não servem para tudo!
Que se escrevam textos herméticos, tudo bem. Mas que se dirijam a leitores especialistas no género!
Que se escrevam textos tendenciosos, enfim... Mas que isso se faça com qualidade! No mínimo!
(Imagem: "Bidonville" daqui )
É um fenómeno, por outro lado, interessante de analisar. Ou seja, averiguar e elucidar os mecanismos subjacentes a este tipo de exteriorizações onde se atropelam conceitos, personagens, ideais e sabe-se lá que mais, tendo em vista, no entanto, objectivos bem definidos. Mal conseguidos mas, apesar de tudo, para muita gente, ambíguos e equívocos o quanto baste para emudecer os mais desavisados. E deste modo, obter uma aproximação a um topo qualquer que não se percebe muito bem qual seja. Mas deve ser algo promissor. Ou não se invocariam personalidades que chegam a ser exóticas para o comum dos leitores de certos textos. Ou não se construiriam "obras literárias" dignas da arquitectura do "bidonville" intelectual em que muitas mentes megalómanas se encontram afundadas.
Tudo isto para exorcizar o meu mal-estar perante certas leituras. Tudo isto para dizer que é inacreditável abrir um belo dia um blog e ler raciocínios incoerentes e mal elaborados, utilizando com a maior das ligeirezas, autores e teorias filosóficas, aplicando esta temática a seu bel-prazer em adaptações livres no sentido de impedir a liberdade de quem as leia.
Textos tendenciosos não faltam, por aí... Não ser tendencioso é difícil a qualquer um/a que se queira minimamente consciente. Mas ser tendencioso não dizendo nada, a não ser dizendo e mal o que outros disseram...é grave. Sobretudo porque os invocados não se podem defender, pela simples razão de que estão mortos.
Evidentemente que existe e deve existir sempre liberdade de interpretação de textos, de autores, de ideias, de teorias expressas e que podem ser, mesmo que não o sejam de facto, do domínio público. Interpretar consiste num acto de liberdade. Sem dúvida. Mas como em toda a liberdade de cada um, o seu exercício termina onde começa a liberdade dos outros. E é esta a questão real. Quando se interpreta com liberdade, os princípios éticos de quem interpreta tornam-se óbvios (ou a sua total inexistência).
É grave fazer adaptações livres de natureza duvidosa, sem dar a quem lê tais adaptações-interpretações os instrumentos necessários para que delas possa ser feita uma correcta avaliação. Pressupondo, desde logo, o desconhecimento, em muitos casos, previsivelmente provável, por parte de leitores de blogs ou de jornais e revistas, por exemplo, será de apresentar com a maior limpidez possível aquilo que torna a leitura passível de ser feita em pé de mínima igualdade. Isto pode ser uma utopia mas talvez o entendimento entre os cidadãos do mundo fosse um pouco mais efectivo, se esta utopia pudesse, pelo menos, nortear as nossas intervenções na sociedade, enquanto paradigma.
Desde sempre, as estratégias argumentativas podem apresentar-se carregadas de sofismas. Não é de agora. No entanto, o problema é que nem todos estão sempre aptos a detectá-los. E quanto a isso, neste caso, como no caso da falta de informação geral, a responsabilidade não é só de quem argumenta com falsidades e nulidades, mas também, em grande dose, cabe àqueles que absorvem essa linha argumentativa. Procurarão informar-se? Procurarão saber quem é o filósofo citado, a teoria referida, a peça de teatro invocada? Se calhar, temos aquilo que merecemos: "A panela certa para a tampa que somos". A imperfeita união perfeita.
Perante um qualquer artigo de opinião (num jornal, por ex.), inclusive de grande qualidade, encontram-se referências que podem ser desconhecidas dos melhores. Em princípio, nada nos impede de averiguar a referência em causa e eventualmente, aprofundar a fonte, até ficar claro o contexto em que ela foi utilizada pelo autor do hipotético artigo.
De todo o modo, seria preciso esclarecer a que "público" se dirige o "orador", depois deste ter averiguado que "público" é aquele que o procura. É neste ponto que os princípios éticos existentes ou inexistentes se tornam óbvios, para quem os queira ver.
Platão e Aristóteles, só para dar dois exemplos, são referências magníficas, mas não servem para tudo!
Que se escrevam textos herméticos, tudo bem. Mas que se dirijam a leitores especialistas no género!
Que se escrevam textos tendenciosos, enfim... Mas que isso se faça com qualidade! No mínimo!
(Imagem: "Bidonville" daqui )
terça-feira, 19 de junho de 2007
I Love You Filosofia
«Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre 2 lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que humedece primeiro.
Etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.»
Manoel de Barros, "Uma didáctica da invenção",
in O livro das ignorâncias
Manoel de Barros: poeta brasileiro (n.1916)
"Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios." ! Desaprender ensina... Eis um texto poético lindíssimo, carregado de significados filosóficos dos mais radicais. O que sabemos ou julgamos saber pode ser o maior obstáculo à descoberta do saber. Porque se julgamos saber, julgamos igualmente não ser necessário procurar saber mais nada. Se já sabemos... Mas o saber, na verdade, revela-se tão multifacetado, tão infinitamente mutável... Ideal seria mantermos sempre a nossa mente aberta e com horizontes suficientemente amplos para permitir reformulações e até rupturas com o que julgamos saber e sobretudo uma atitude de permanente espanto ou admiração. O que pode ser muito difícil. Mas, o inverso, ou seja, o comodismo de esquemas e modelos adquiridos e respectiva segurança, será a melhor alternativa? Não correremos, assim, o risco de tanto de tanto nos "passar ao lado"?
Na sua origem, a filosofia caracterizou-se por ser atitude de espanto (o chamado "espanto filosófico") e de admiração. E nunca deixou de ser essa a forma de existir no mundo de toda a atitude verdadeiramente filosófica radical.
A este propósito, nunca é demais referir o célebre exemplo socrático do "só sei que nada sei". Uma afirmação sempre objecto de muita especulação. Mas, na verdade, qual o contexto destas palavras socráticas? Esta é a questão central, a meu ver. E esse contexto é aquele pelo qual é possível clarificar o que é a filosofia...
Sócrates tinha os seus célebres inimigos, os Sofistas. Ora, estes intitulavam-se "sábios" (sophos), algo amplamente questionado por Sócrates. Estes sábios como, por exemplo, Protágoras, afirmavam possuir o saber, mas o saber no sentido daquele que era possível o ser humano possuir. Por exemplo, a arte de convencer, a forma como o orador deveria dirigir-se ao público, etc. Ou seja, um saber útil, sem dúvida, no contexto da Grécia dessa época, onde a vida política surgia em todo o seu esplendor. Mas Sócrates discordava. Não só porque considerava que era possível conhecer a verdade, não se contentando com conhecimentos relativos, como defendia a procura incessante do saber verdadeiro. Não a sua posse que é fictícia pois, enquanto seres humanos, nunca poderemos obter o verdadeiro conhecimento na sua totalidade. O primeiro passo para nos tornarmos, não sábios, mas menos ignorantes, é reconhecer que pouco ou nada sabemos. Este posicionamento face ao conhecimento é o único que possibilita "olhar" o que é realmente verdadeiro. Esta era a "sabedoria socrática". A consciência do pouco valor da sabedoria humana.
Todas estas considerações acerca da inesgotável figura socrática, conduzem, precisamente, à filosofia, ou seja, ao amor pelo saber. O contrário da sua posse. O permanente estado de suspensão do filósofo, essa sua projecção em direcção a um sentido, desenvolvendo um percurso nunca terminado...
Se pela filosofia, nos situamos já no desejo de..., nessa procura do que se deseja que é aquilo em que consiste o amor; o que é ainda preciso, agora, é recriar o amor pelo próprio amor da sabedoria.
Por outro lado, sabemos que Sócrates, tal como Platão, considerava a poesia uma forma menor de conhecimento. Sem entrar em especulações acerca desta questão interessante, é evidente que a poesia é uma forma de expressão, entre outras. Difere da filosofia na medida em que esta é um saber discursivo de carácter racional, pelo qual se procura explicar.
Serão, por certo, muitos os caminhos possíveis de percorrer para procurar o verdadeiro conhecimento. Face à filosofia, a poesia apela às emoções em vez de chamar à razão. É esse o percurso próprio de toda a manifestação artística.
Mas não deveremos deixar de relacionar o genuíno "espanto filosófico" com a "criatividade artística". Temos consciência da dificuldade de alcançar um conhecimento definitivo (queremos obtê-lo, de facto?). Essa poderá ser a verdadeira e íntima motivação quer da poesia, quer da arte, em geral. A procura de outras formas de aceder ao conhecimento. Em especial, a tentativa de lá chegar usando outras linguagens.
Se pensarmos que decidimos racionalmente informados emocionalmente, faz todo o sentido privilegiar as mais diversas manifestações artísticas, como pontos de partida para a reflexão filosófica. Pontos de partida que podem ser o lugar próprio onde a filosofia acontece. Um duplo acontecimento e uma dupla reflexão: acerca da arte e a partir da arte.
( Imagem: Trasmundo de Remédios Varo )
Na sua origem, a filosofia caracterizou-se por ser atitude de espanto (o chamado "espanto filosófico") e de admiração. E nunca deixou de ser essa a forma de existir no mundo de toda a atitude verdadeiramente filosófica radical.
A este propósito, nunca é demais referir o célebre exemplo socrático do "só sei que nada sei". Uma afirmação sempre objecto de muita especulação. Mas, na verdade, qual o contexto destas palavras socráticas? Esta é a questão central, a meu ver. E esse contexto é aquele pelo qual é possível clarificar o que é a filosofia...
Sócrates tinha os seus célebres inimigos, os Sofistas. Ora, estes intitulavam-se "sábios" (sophos), algo amplamente questionado por Sócrates. Estes sábios como, por exemplo, Protágoras, afirmavam possuir o saber, mas o saber no sentido daquele que era possível o ser humano possuir. Por exemplo, a arte de convencer, a forma como o orador deveria dirigir-se ao público, etc. Ou seja, um saber útil, sem dúvida, no contexto da Grécia dessa época, onde a vida política surgia em todo o seu esplendor. Mas Sócrates discordava. Não só porque considerava que era possível conhecer a verdade, não se contentando com conhecimentos relativos, como defendia a procura incessante do saber verdadeiro. Não a sua posse que é fictícia pois, enquanto seres humanos, nunca poderemos obter o verdadeiro conhecimento na sua totalidade. O primeiro passo para nos tornarmos, não sábios, mas menos ignorantes, é reconhecer que pouco ou nada sabemos. Este posicionamento face ao conhecimento é o único que possibilita "olhar" o que é realmente verdadeiro. Esta era a "sabedoria socrática". A consciência do pouco valor da sabedoria humana.
Todas estas considerações acerca da inesgotável figura socrática, conduzem, precisamente, à filosofia, ou seja, ao amor pelo saber. O contrário da sua posse. O permanente estado de suspensão do filósofo, essa sua projecção em direcção a um sentido, desenvolvendo um percurso nunca terminado...
Se pela filosofia, nos situamos já no desejo de..., nessa procura do que se deseja que é aquilo em que consiste o amor; o que é ainda preciso, agora, é recriar o amor pelo próprio amor da sabedoria.
Por outro lado, sabemos que Sócrates, tal como Platão, considerava a poesia uma forma menor de conhecimento. Sem entrar em especulações acerca desta questão interessante, é evidente que a poesia é uma forma de expressão, entre outras. Difere da filosofia na medida em que esta é um saber discursivo de carácter racional, pelo qual se procura explicar.
Serão, por certo, muitos os caminhos possíveis de percorrer para procurar o verdadeiro conhecimento. Face à filosofia, a poesia apela às emoções em vez de chamar à razão. É esse o percurso próprio de toda a manifestação artística.
Mas não deveremos deixar de relacionar o genuíno "espanto filosófico" com a "criatividade artística". Temos consciência da dificuldade de alcançar um conhecimento definitivo (queremos obtê-lo, de facto?). Essa poderá ser a verdadeira e íntima motivação quer da poesia, quer da arte, em geral. A procura de outras formas de aceder ao conhecimento. Em especial, a tentativa de lá chegar usando outras linguagens.
Se pensarmos que decidimos racionalmente informados emocionalmente, faz todo o sentido privilegiar as mais diversas manifestações artísticas, como pontos de partida para a reflexão filosófica. Pontos de partida que podem ser o lugar próprio onde a filosofia acontece. Um duplo acontecimento e uma dupla reflexão: acerca da arte e a partir da arte.
( Imagem: Trasmundo de Remédios Varo )
segunda-feira, 18 de junho de 2007
Início
Devemos, particularmente, a António Damásio o conceito de marcador somático*. Acontece que, a meu ver, o subjacente a este conceito, assim como tudo o que dele resulta, é extremamente interessante. Nomeadamente, pode encerrar uma nova perspectiva de análise de um sem número de questões e também de respostas. Como se, por obra deste conceito, pudessemos ver todas as coisas revestidas de novas cores, de novas roupagens, recriando e renovando o nosso olhar sobre o mundo, a vida, o ser humano e, na verdade, sobre o universo inteiro, conhecido e desconhecido.
A minha homenagem a António Damásio e a todos os que se dedicam à investigação desse extraordinário orgão que possuímos: o cérebro humano. Tão surpreendente e tão...misterioso. Dele conhecemos tanto mais, quanto mais ele nos mostra que é imenso o que dele desconhecemos.
Serve este blog, de acordo com esta orientação previamente assinalada, para discorrer livremente (o que não invalida a preocupação com o rigor exigível) a partir de temas na área da filosofia, psicologia e neurociências em geral, e de algumas outras áreas científicas, em particular. Para além de outros assuntos que possam vir a tornar-se objecto de reflexão, atendendo a interesses por eles despertados. Um exemplo a citar, desde já, é o da preocupação com a defesa do ambiente. Porque o mundo está mesmo a mudar em termos ambientais!
Porque a filosofia e a ciência(s) são cativantes e verdadeiramente fascinantes!
* Marcador somático - mecanismo automatizado que suporta as nossas decisões a partir de experiências emocionais anteriores (resultantes da ligação entre as situações vividas e respectivos estados somáticos, ou seja, estados do corpo). Estas experiências anteriores ficam gravadas nas áreas pré-frontais, responsáveis por funções como a memória, entre outras consideradas de nível superior devido à sua complexidade. Perante a necessidade de tomar decisões, o córtex cerebral apoia-se nas emoções para decidir. De acordo com Damásio, sem emoção, ficaríamos impossibilitados de fazer as escolhas mais simples. Os marcadores somáticos informam o córtex sobre as decisões a tomar. O nosso pensamento tem necessidade das emoções para ser eficaz.
De forma simplista, pode dizer-se que, de acordo com Damásio, nisto consiste o "erro de Descartes", ou seja, a mente(razão) não existe separadamente do corpo (emoção). Elimina-se, assim, a cisão entre a "res cogitans" (pensamento) e a "res extensa" (corpo enquanto extensão geométrica) de Descartes que, de acordo com este filósofo, existiam separadamente. Esta foi, aliás, uma das principais dificuldades da filosofia cartesiana, com a qual o próprio filósofo se debateu no sentido de dar coerência ao dualismo presente na sua teoria.
Nota: Evidentemente que estas questões são bem mais complexas do que aqui possam parecer e não dispensam consultas mais aprofundadas da temática, para efectivo esclarecimento acerca da mesma.
Mais informação sobre António Damásio aqui
(Imagem: Self-portrait on the beach with the Monn de Gil Bruvel)
A minha homenagem a António Damásio e a todos os que se dedicam à investigação desse extraordinário orgão que possuímos: o cérebro humano. Tão surpreendente e tão...misterioso. Dele conhecemos tanto mais, quanto mais ele nos mostra que é imenso o que dele desconhecemos.
Serve este blog, de acordo com esta orientação previamente assinalada, para discorrer livremente (o que não invalida a preocupação com o rigor exigível) a partir de temas na área da filosofia, psicologia e neurociências em geral, e de algumas outras áreas científicas, em particular. Para além de outros assuntos que possam vir a tornar-se objecto de reflexão, atendendo a interesses por eles despertados. Um exemplo a citar, desde já, é o da preocupação com a defesa do ambiente. Porque o mundo está mesmo a mudar em termos ambientais!
Porque a filosofia e a ciência(s) são cativantes e verdadeiramente fascinantes!
* Marcador somático - mecanismo automatizado que suporta as nossas decisões a partir de experiências emocionais anteriores (resultantes da ligação entre as situações vividas e respectivos estados somáticos, ou seja, estados do corpo). Estas experiências anteriores ficam gravadas nas áreas pré-frontais, responsáveis por funções como a memória, entre outras consideradas de nível superior devido à sua complexidade. Perante a necessidade de tomar decisões, o córtex cerebral apoia-se nas emoções para decidir. De acordo com Damásio, sem emoção, ficaríamos impossibilitados de fazer as escolhas mais simples. Os marcadores somáticos informam o córtex sobre as decisões a tomar. O nosso pensamento tem necessidade das emoções para ser eficaz.
De forma simplista, pode dizer-se que, de acordo com Damásio, nisto consiste o "erro de Descartes", ou seja, a mente(razão) não existe separadamente do corpo (emoção). Elimina-se, assim, a cisão entre a "res cogitans" (pensamento) e a "res extensa" (corpo enquanto extensão geométrica) de Descartes que, de acordo com este filósofo, existiam separadamente. Esta foi, aliás, uma das principais dificuldades da filosofia cartesiana, com a qual o próprio filósofo se debateu no sentido de dar coerência ao dualismo presente na sua teoria.
Nota: Evidentemente que estas questões são bem mais complexas do que aqui possam parecer e não dispensam consultas mais aprofundadas da temática, para efectivo esclarecimento acerca da mesma.
Mais informação sobre António Damásio aqui
(Imagem: Self-portrait on the beach with the Monn de Gil Bruvel)
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